José Medeiros de Lacerda

Leia poesia - A poesia é o remédio da alma

Textos

A LENDA DA CARRUAGEM DE ANA JANSEN
Você já imaginou
Sair pela noite a fora
E encontrar uma carruagem
Carregando uma senhora
Toda de preto vestida
Conduzindo uma vela erguida
Até o romper da aurora?

Por este Nordeste a fora
Onde eu vivo a viajar
Há sempre uma boa lenda
Que precisa se contar;
Com muita fé e coragem
Seja qual for a viagem
Estou sempre a pesquisar.

A cultura popular
É rica em imaginação
Há lendas nacionais
Há lendas por região
E este acontecimento
Eu tomei conhecimento
No Estado do Maranhão.

No tempo da escravidão
Regime de monarquia
Entre senzala e palácio
A história acontecia
Depois era registrada
No papel documentada
Pra ser contada hoje em dia.

Pois tudo que se inicia
Sempre tem o seu final
Mas há fatos surpreendentes
Em nossa lei natural
Que em lenda é transformada
Passando a ser cultuada
No folclore nacional.

No período colonial
Esse fato aconteceu
Na ilha de São Luis
Onde algum tempo viveu
Uma senhora abastada
Impiedosa, malvada
Que por lá apareceu.

Quem estudou conheceu
Nossa civilização
Portugueses, holandeses
Lutaram por ela em vão
Construiu, edificou
Mas foi França quem fundou
São Luis do Maranhão.

Não se sabe a que nação
Essa mulher pertencia
Só se sabe que era rica
E da aristocracia
Nome ANA JANSEN PEREIRA
LEITE e era mãe solteira,
Tudo quanto se sabia.

Por DONANA respondia
Assim ela era chamada
Muito rica e poderosa
Por isso era cobiçada
Despertando preconceitos
Por possuir os trejeitos
De uma mulher de vanguarda.

Uma história registrada
Envolvendo essa possante
Se deu com Antônio Meireles
Um rico comerciante
Pior que sussuarana
Com inveja de Donana
Lhe preparou um displante.

Esse tal comerciante
Interessado em fuxicos
Encomendou na Inglaterra
Duas centenas de penicos
De louça com a imagem
De Donana na carruagem
Só pra fazer mexericos.

Depois botou os penicos
Pra comercializar
Ana Jansen comprou todos
Sem ele desconfiar
Matreira por encomenda
Levou tudo pra fazenda
Pra escravaria usar.

Começaram a armazenar
As «coisas repugnantes»
Vez por outra conduziam
Numa carroça possante
O fétido conteúdo
E quebravam aquilo tudo
Na loja do comerciante.

Se ele era intrigante
Ela tinha maioria
Ele usava seu prestígio
Ela usava fidalguia
Ambos eram endiabrados
Deviam até ser casados
Pois os dois se mereciam.

Ana Jansen possuia
Escravos em quantidade
Se valia da riqueza
Pra fazer impunidade
Batendo, chicoteando
E muitas vezes matando
Sem ter dó nem piedade.

Praticar atrocidade
Pra ela era normal
Amputar perna de escravo
Era coisa natural
Se tornava indiferente
Cortar cabeça de gente
Ou qualquer outro animal.

Já se sabe que o mal
A ninguém nunca ajudou
Quem erra e não se arrepende
Nunca a salvação ganhou.
Foi assim que aconteceu:
Quando Ana Jansen morreu
Nem a terra a aceitou.

Sua matéria ficou
No reino da impunidade
Classificada no inferno
Como Deusa da Maldade
Condenada finalmente
A vagar perpetuamente
Pelas ruas da cidade.

Ficou pra eternidade
A lenda dessa infeliz
Cuja vida de maldade
Deus cortou pela raiz;
Depois de séculos passados
Esse fato ainda é lembrado
Nas ruas de São Luis.

Há pessoas que ainda diz
Que ela é sempre percebida
De Quinta pra Sexta-feira
Por gente desiludida
Que sai pela solidão
Da noite em busca de ação
Que alegre a sua vida.

Uma carruagem perdida
Dessas bem mal assombrada,
Passeia na noite a dentro
Até alta madrugada,
É Ana Jansen vagando
Pelas ruas procurando
Alguma alma penada.

Ela parte em disparada
Do Cemitério Gavião
Conduzindo Ana Jansen
De vela acesa na mão
Procurando na janela
Alguém a quem dê a vela
E lhe faça uma oração.

Quem aceita a doação
Da vela, acesa ou apagada,
Ficará muito surpreso
No final da madrugada
E terá muito sobroço
Ao ver a vela num osso
De defunto transformada.

A carruagem citada
Ou «carro mal assombrado»
Por um escravo sem cabeça
É toda a noite guiado
Com Ana a chicoteá-lo
E também os seus cavalos
São todos decapitados.

Os locais mais frequentados
Pela tal aparição
São ruas mal habitadas
Cheias de prostituição
E homens sem idoneidade
Que na marginalidade
Praticam contravenção.

O Estado do Maranhão
Não deve ser diferente,
Mesmo com tanta cultura
E um povo inteligente
Também tem contravenção
E gente sem coração
Praticando esse ambiente.

Hoje é tudo diferente
Do tempo da escravidão
Mas ainda tem Anas Jansens
Com seus chicotes na mão
Fazendo e acontecendo
E a justiça tudo vendo
Mas não toma decisão.

A nossa religião
Cada vez mais deturpada
Padres usam tatuagens
E exibem namorada,
É o passado voltando
E Ana Jansen atuando
De forma modificada.

Já não se espera mais nada
Que transforme esse cortiço
Eu devia ficar calado
Mas não posso ser omisso.
Se as leis mudam o sistema
Cada um tem seu esquema,
Não tenho nada com isso.

Lamento esse reboliço
Acho pouco varonil
Concluo mais um livreto
Em verso culto e servil
Recordação do passado
Dedicando e dedicado
Ao povo do meu Brasil.
Série Coisas do Brasil - Vol. XXXII
Zé Lacerda
Enviado por Zé Lacerda em 17/02/2011
Alterado em 18/02/2011
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