José Medeiros de Lacerda

Leia poesia - A poesia é o remédio da alma

Textos

CABEÇA DE CUIA - UMA LENDA DO PIAUÍ
Eu vivo sempre estudando
As coisas do meu país
Estórias que o povo conta
Mentiras que o povo diz
Por meu Nordeste beleza
De Recife a Fortaleza
Da Bahia a São Luis.

Assim me sinto feliz
Cordelando estrada a fora
Em todo lugar que chego
Sempre uma lenda aflora
Cangaceiros e outros mais
Estórias regionais
Como essa que conto agora.

O Piaui tem história
No folclore do lugar
Nas águas do Parnaiba
Do Poty que corre lá
Que a cultura enriquece
Mas o Brasil não conhece
Por isso eu passo a contar.

É dificil acreditar
Em causos de caçador
Vaqueiro, chofer de praça,
De poeta cantador
De frentista, de padeiro,
Cachaceiro, seringueiro,
Marinheiro e pescador.

Toda história tem valor
Seja mentira ou verdade
Por menos que ela circule
No seio da sociedade
Mas se for publicamente
Contada por muita gente
Se torna realidade.

Do outro lado, se a verdade
For contada de maneira
Deturpada, duvidosa
Como fosse brincadeira
Se torna falsa, afinal,
Por mais que seja real
Nunca será verdadeira.

O homem é fera primeira
Do reino dos animais
Monta usina nuclear
Nos espaços siderais
Fala sério, diz besteiras
Cria as lendas costumeiras
E conta histórias reais.

Há muitos anos atrás
Existiu no Piauí
Um pescador que vivia
No Parnaiba e Poty
Em meio à vegetação
E a sombra da maldição
Crescia dentro de si.

Crispim, o seu nome aqui,
Cresceu sem religião
Sem pai pra lhe aconselhar
Sem amigo, sem irmão
Só um parente ele tinha:
Sua mãe, muito velhinha,
Sem mágoa no coração.

Nunca teve uma lição
Não aprendeu trabalhar
Pra sustentar sua mãe
Passava  o dia a pescar
Nem sempre o rio ajudava
E quando nada pescava
Pegava a esbravejar.

De tanto necessitar
Ele só vivia aflito
Ameaçava sua mãe
Socava o ar, dava grito
Num desespero profundo
Agredia todo mundo
Chamava o rio maldito.

A sua mãe em conflito
Coitada, muito velhinha
Sem esperança de vida
Em sua pobre casinha
Via a tristeza do filho
Faminto e maltrapilho
Com a pobreza que tinha.

Crispim um dia a tardinha
Voltou pra casa zangado
Por não ter pescado nada
Esbravejava irritado
Dava soco no vazio
Xingava os peixes, o rio,
Tudo que via ao seu lado.

A mãe com muito cuidado
Se aproximou com cautela
Quis falar-lhe, mas o monstro
Mesmo sem olhar pra ela
Não queria escutar nada
Pegou um cabo de enxada
Bateu na cabeça dela.

Com isso ela se esparrela
Com todo corpo no chão
Porém antes de morrer
Jogou-lhe uma maldição:
- Com isto, filho malvado,
Tu hás de ser transformado
Num ente sem coração.

Cometeste ingratidão
Não teve pena de mim
Matar tua genitora
Te amaldiçoo enfim
Por ser um filho proscrito
Serás um monstro maldito
Com um final muito ruim.

Nesses dois rios afim
Tu haverás de vagar
Serás um monstro assombroso
Até voce devorar
Daqui para o fim dos dias
As sete virgens Marias
Que nunca has de encontrar.

Com isso os anjos no altar
Na hora que a mãe falou
Todos disseram amém
Jesus no céu escutou
Viu-se uma porta sem fim
E de repente Crispim
Num monstro se transformou.

Seu corpo desfigurou
Com uma cara muito feia
A cabeça cresceu tanto
Que dava uma arroba e meia
O rio sua matéria encerra
E só aparece na terra
Em noite de lua cheia.

Sua aparência é tão feia
Que a água fica assustada
No lugar onde aparece
Pescador não pesca nada
Os rios soltam lampejos
E até mesmo os caranguejos
Ficam na lama entocada.

A velha foi sepultada
Como fosse um indigente
Não ficou nenhum registro
Não sobrou nenhum parente
Só a lembrança bisonha
E Crispim que ainda sonha
Um dia voltar ser gente.

Os pescadores  tementes
Nele não querem falar
Quando falam sentem medo
Passam noites sem pescar
Temem perder a memória
Também temem qualquer hora
Com o Crispim se encontrar.

Cabeça de Cuia está
Cumprindo sua trajetória
Uma velha diz que viu
Porém perdeu a memória
Sua fala ficou rouca
Fica cada vez mais louca
Quando escuta essa história.

Nos carrilhões da memória
Dos bebedores de cana
Dos caçadores de paca
Dos pescadores da lama
Onde há alguém conversando
Cabeça de Cuia entrando
A conversa se inflama.

Todo final de semana
Tá nos livros registrado
Nas águas desses dois rios
Sempre alguém morre afogado
A água leva e não traz
Deixando cada vez mais
Banhistas desesperados.

Já estão tomando cuidado
Para não deixar ninguém
Tomar banhos nesses rios,
Isso, para o próprio bem,
É o fim da maldição
E a mesma maldição
Vai ao pescador também.

Cabeça de Cuia vem
Toda semana à procura
Das sete Marias virgens
Cumprindo sua desventura
Com muita gente o vendo
Subindo o rio e descendo
Em noite clara e escura.

Sábado e domingo a procura
É muito mais acirrada
Pois o pobre ainda sonha
Ter a maldição quebrada
Sempre atormentando os vivos
Por isso está nos arquivos
Tanta morte registrada.

Eras e eras passadas
E a história permanece
Dizem quando os rios enchem
Na correnteza ele desce
Mostrando suas entranhas
Com gargalhadas estranhas
Toda vez que aparece.

Quem o vê jamais esquece
Chora quando está contando
Ou então perde a memória
Não sabe o que está falando
Quem está por perto critica
E a história se multiplica
Cada vez mais aumentando.

Ele nas águas vagando
Do Parnaíba e Poty
No encontro dos dois rios
Tem uma estátua ali
Pra reforçar a emenda
E eu versei essa lenda
Do Estado do Piauí.
Coisas do Brasil, Vol. XXIV
Zé Lacerda
Enviado por Zé Lacerda em 31/01/2011
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