José Medeiros de Lacerda

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Textos

PANTÉU - UMA LENDA PERNAMBUCANA
No Brasil há tantas lendas
Muitas delas estudadas
Algumas que são notícias
Outras desabilitadas
Lendas pela mata virgem
De umas se sabe a origem
Outras desacreditadas.

Lendas nacionalizadas
Pois vieram do estrangeiro
Outras nascem por acaso
Pelo nosso tabuleiro
Muitas lendas nacionais
Outras tantas regionais
Por este chão brasileiro.

No meu Nordeste altaneiro
Também tem sua estórias
Das lendas que se formaram
De alguém que cantou vitórias
Algumas já esquecidas
Outras mais enriquecidas
Despertam nossas memórias.

No Pernambuco as histórias
Tem cultura variada
Muitas lendas que se contam
De boca em boca falada
Dos folguedos e eventos
Seguem através dos tempos
Da população lembrada.

Na Mata Sul afamada
Tem tanta lenda a foléu (1)
A mais curiosa delas
É a LENDA DO PANTÉU(2)
Bicho de pena e cabelo
O pescador quando vê-lo
Corre que perde o chapéu.

Caçadores com mondel(3)
Cada um conta seu fato
Quem viu Pantéu assustou-se
Correu com medo no ato
O pescador mais taludo(4)
Deixou puçá(5), deixou tudo
Perdido dentro do mato.

João Grande(6) era um desacato
Ninguém ousava adentrar
Os peixes e caranguejos
Tinha de mais pra pescar
Mas se alguém se atrevia
O Pantéu aparecia
Ninguém queria ficar.

Tinha o corpo irregular
Nu e assexuado(7)
Pernas e pés de socó (8)
Dedos das mãos alongados
Penas nos pés e ouvidos
Os braços magros, compridos,
Um ser semi-humanizado.

Em cada dedo alongado
As unhas pontiagudas
Cabeça grande, comprida,
Orelhas longas, pontudas,
Os olhos horripilantes
Com olhares penetrantes
Deixava as pessoas mudas.

Algumas partes peludas
Com a barbicha espetada
Cabelos como vassoura
Para cima arrepiada
O queixo comprido e fino
Presas de animal ferino
E dentadura aguçada.

Cor do corpo enlameada
No cotovelo um esporão(9)
Um pescador foi pro mangue
Viu caranguejo em montão
Ficou feliz pra dedéu
Sem saber que o Pantéu
Vivia lá de plantão.

Depois com exatidão
O pescador me contou
Pegou muito caranguejo
Quando para diante olhou
Quase morre de repente,
Dez metros a sua frente
Um ser estranho avistou.

E não era um pescador
Que estava ali pescando
Era um ser quase gente
Cara na lama tocando
Bunda magra levantada
A mão na loca enterrada
Os caranguejos pegando.

E ficou observando
Aquela coisa na lama
Nela não havia sexo
Macho e fêmea, diz a fama,
Vendo aquele bicho horrendo
Caranguejeiro(10) tremendo
Saiu dali nessa trama.

Os caçadores de fama
Falam no Pantéu também
Nas matas que tinham rios
Barreiras com boca tem
Como se fossem janelas
As pacas vão morar nelas
O caçador caçar vem.

Lugar que não vem ninguém
Era o que eles preferia
Deixava ali uma ceva(11)
Dendê(12), que a paca comia
Com a espingarda esperava
A paca se aproximava
O caçador abatia.

A Sexta-feira era o dia
Ninguém podia caçar
Para não sofrer surpresa
E depois se lastimar
Pode parecer bravata
Mas com os segredos da mata
Ninguém queria brincar.

Pra quem gostar de pescar
Profissional, amador,
Sempre tem o que contar
«Estórias de caçador»
Algumas até faz medo
Mas só ele sabe o segredo
Pelos lugares que andou.

Tobias, um caçador
Com trinta anos de mata
Foi caçar na sua espera
Outra pessoa relata
Como foi que aconteceu
Na noite que ele sofreu
Uma surpresa ingrata.

Um urro estranho na mata
O Tobias escutou
Sentiu um mal pelo corpo
Que ele não aguentou
Completamente ariado(13)
Saiu desorientado
A espingarda deixou.

Na mata ele se embrenhou
Não soube como voltar
Aturdido, a mente fraca,
Não pôde em casa chegar
Quando deram pela falta
A família foi à mata
A Tobias procurar.

Conseguiram encontrar
Ele estava extasiado(14)
Sem falar coisa com coisa
Com aspecto de assombrado
Corpo ardendo como brasa
O levaram pra casa
Faminto, trêmulo, cansado.

Com pouco tempo passado
Morreu sem nada dizer
Falava que um urro estranho
Na mata o fez correr
Com o corpo cheio de dores
Só os velhos pescadores
Sabiam pra entender.

Um urro de estremecer
Muito alto e estranho
Dava um choque neurótico
Deixando tremendo, fanho
E cheio de calafrios
Nas matas perto dos rios
Causava um medo tamanho.

Era o Pantéu, quando zanho,(15)
Assim o povo dizia
Aonde havia Pantéu
Nessa mata ninguém ia
Fosse só pra passear
Pra cortar lenha ou caçar
Nem de noite nem de dia.

Na Mata Sul, quem lá ia
Com certeza viu Pantéu
Pescador de caranguejo
Nego pegando xexéu(16)
Com gaiola e alçapão
Pra comercialização
Ou criar como troféu.

Diferença desse incréu(17)
É só a aparição
No mangue é quase pessoa
Esquisito em pé e mão
Na mata com rio é urros
Horripilantes esturros
De matar do coração.

Onde houver superstição
Se fala em aparições
De espíritos poderosos
Das árvores os guardiões
E os bichos das florestas
Cada qual com suas gestas(18)
Deus lhes deu essas missões.
Coisas do Brasil, Vol. XXII
Zé Lacerda
Enviado por Zé Lacerda em 31/01/2011
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