José Medeiros de Lacerda

Leia poesia - A poesia é o remédio da alma

Textos

A LENDA DO MAPINGUARI
Quem avisa amigo é
Quem desdenha quer comprar
O pior surdo é aquele
Que não gosta de escutar
São adágios mais usados
E variamente incrustrados
Na cultura popular.

Se é maneira de falar
Mas tem sempre sua essência
Prestar muita atenção
Se adquire experiência
Viver dentro dos padrões
Pra não sofrer as sanções
Da Divina Providência.

Da natureza a ciência
Tem seus modos, seu porvir,
Protege quem a respeita
Pune quem quer destruir
Como a coisa deve ser
Pois não serve pra viver
Quem não vive pra servir.

No Amazonas eu ouvi
Não lembro quem me contou
Sobre um tal Mapinguari
Marcado por certo odor
Das matas um habitante
Ao humano semelhante
E um bicho assustador.

Quando chega é um horror
Essa aparição funesta
Tem pelo por todo lado
Olho no meio da testa
Boca enorme, muito feio,
Pro caboclo um aperreio
No seio dessa floresta.

Quando ele se manifesta
Nem parece um animal
A boca vai do nariz
À área estomacal
Garras, punhais afiados,
Os pés para trás virados
É um ser descomunal.

Que o ver sente-se mal
Pelo odor rescendido
Também pela estatura
Desse ser descomedido
Como uma preguiça gigante
Maior do que um elefante
Pela floresta perdido.

À noite fica escondido
O dia é seu mister
Tem a pele semelhante
Ao couro de jacaré
Um casco nas costas tem
Quando essa figura vem
O jeito é dar no pé.

Quem nele não leva fé
Pode vir a se dar mal
Pois ele está no seu pa
Sumido no matagal
Gritando pra lhe envolver
E se voce responder
Tem seu momento final.

Sua boca vertical
Vai do pescoço ao umbigo
Seu grande olho na testa
Carrega a morte consigo
Sozinho, sem companheiro,
Pois ele tem no seu cheiro
O seu pior inimigo.

Pra ele não tem abrigo
Pois destrói tudo a seu lado
Arranca por onde passa
Árvores de grande calado
Com aquela boca rasgada
Dele não se salva nada
O que ele encontra é finado.

O pelo todo eriçado
Espesso como serragem
Todo mundo se arrepia
Vendo o rastro na folhagem
As plantas ficam quebradas
Assombrosas as pegadas
Da mencionada visagem.

Se conta nessas paragens
Uma cena de terror
Que viram um mapinguari
Num ato desolador
Com suas garras cortando
E aos poucos degustando
O corpo de um caçador.

Deixando onde passou
Rastros de destruição
Soltando gritos horrendos
De causar assombração
Pois o berro é parecido
Com o dos homens emitido
Para comunicação.

Caçadores de plantão,
Lenhadores, seringueiros,
Lavradores ribeirinhos
Que sabem seu paradeiro
Rezam pra não encontrá-lo
Pois não conseguem matá-lo
Por causa do seu mau-cheiro.

Mas é grande o converseiro,
Maior a variação
Quem diz ter visto essa fera
Tem diferente noção
Não é à toa que é lenda
Para que ninguém entenda
E dê também sua versão.

Uns chamam de macacão
Peludo como um quatá
Os pés são cascos de burro
Tem cabeça de gambá
Outros falam diferente
Diz que a cabeça é de gente
E só lhe falta falar.

Mas é comum se escutar
Gritos cheios de pavor
Imitando a voz humana
Mas é o devorador
Como pessoa indefesa
Tentando atrair a presa
Geralmente caçador.

Segundo um pesquisador
Uma explicação lendária
Para o mapinguari
Essa espécie imaginária
Era um índio feiticeiro
Transformado por inteiro
Numa espécie visionária.

Com feitiçaria vária
Ele descobre o segredo
Da sua imortalidade
E cai então em degredo
Transformou-se de momento
Num animal fedorento
Tão feio que mete medo.

Não tem rocha nem penedo
Que ele não enfrentaria
Só pancada na cabeça
Desse monstro o mataria
Mas quem a isso se afronta
Com seu cheiro fica tonta,
Ver a noite virar dia.

Noutra versão se anuncia
Que toda voracidade
Dessa fera cai por terra
Devido uma cavidade
Vulnerável no umbigo
Se atingido é castigo,
Esmorece de verdade.

Não sei se há veracidade
No que acabo de narrar
Mas é uma lenda viva
No domínio popular
Não quero nesta vivência
Passar pela experiência
De um bicho desse encontrar.
Coisas do Brasil, Vol. XVII
Zé Lacerda
Enviado por Zé Lacerda em 31/01/2011
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